
Medicina Tradicional Chinesa
Uma medicina que aprende a observar antes de intervir
Muito antes de a Medicina Tradicional Chinesa fazer parte da nossa prática clínica, a cultura chinesa já tinha deixado a sua marca.
A filosofia, as artes marciais, a meditação e, mais tarde, o estudo do Taoísmo, do Confucionismo e do Budismo foram abrindo caminho para uma forma diferente de compreender a relação entre o ser humano, a natureza e o equilíbrio.
Anos depois chegou o estudo formal da Medicina Tradicional Chinesa.
E aquilo que inicialmente era uma cultura admirada tornou-se também uma nova forma de olhar a saúde e a pessoa.
Uma medicina construída sobre relações
A Medicina Tradicional Chinesa desenvolveu, ao longo de séculos, um sistema próprio de compreensão do organismo.
Conceitos como Yin e Yang (陰陽), os Cinco Movimentos — Wu Xing (五行), o Qi (氣), o Sangue — Xue (血), os Líquidos Orgânicos — Jin Ye (津液), a Essência — Jing (精) e o Espírito — Shen (神) ajudam a interpretar diferentes funções e relações dentro desse sistema médico tradicional.
A teoria dos Zang-Fu (臟腑) observa órgãos e vísceras não apenas pela sua estrutura, mas sobretudo pelas funções e relações que lhes são atribuídas pela Medicina Chinesa.
E através do sistema Jing Luo (經絡), a MTC descreve uma rede de canais e conexões que permite compreender o organismo como um todo relacionado.
Nenhum destes conceitos vive isoladamente.
É na relação entre eles que a Medicina Tradicional Chinesa encontra a sua linguagem.
Observar a pessoa antes de observar a doença
Na MTC, avaliar não significa procurar apenas o local onde existe dor ou identificar um sintoma isolado.
A observação começa na própria pessoa.
A aparência, a pele, a voz, o odor, a temperatura, a constituição e outras características podem acrescentar informação à história clínica.
A observação da língua (舌診, Shé Zhěn) e a avaliação do pulso (脈診, Mài Zhěn) constituem duas das formas tradicionais mais conhecidas de avaliação e continuam a fazer parte da nossa consulta.
A elas juntam-se o diálogo, a observação clínica e, durante o tratamento manual, a palpação dos tecidos e de diferentes regiões do corpo.
Cada elemento acrescenta uma peça.
O objetivo não é retirar conclusões a partir de um único sinal, mas procurar relações e padrões dentro do conjunto da pessoa.
Dois pares de óculos sobre a mesma pessoa
Na Nmedicinas, a Medicina Tradicional Chinesa não substitui a formação médica ocidental, nem pretendemos que uma explique aquilo que a outra não consegue explicar.
Preferimos vê-las como dois pares de óculos.
Cada um permite observar determinadas camadas da mesma realidade.
A anatomia, a fisiologia, a patologia e os exames complementares oferecem-nos uma determinada leitura. A MTC acrescenta outra, construída sobre os seus próprios modelos de equilíbrio, função e relação.
Quando conseguimos olhar através das duas perspetivas, a pergunta deixa de ser qual delas está certa.
Passa a ser:
o que podemos compreender melhor quando aprendemos a olhar de mais de uma maneira?
Da Acupuntura às mãos
O estudo da Acupuntura (針灸, Zhēn Jiǔ) permite conhecer pontos, canais, trajetos, relações funcionais e diferentes formas tradicionais de intervenção.
Na nossa prática, porém, grande parte desse conhecimento acabou por encontrar outra expressão.
Em vez de a agulha constituir a ferramenta principal, privilegiamos frequentemente as mãos e a pressão terapêutica, integrando conhecimentos provenientes da Acupuntura na Acupressão e no restante tratamento manual.
Os pontos permanecem.
Os canais permanecem.
O raciocínio permanece.
O que muda é a forma de chegar até eles.
Muito mais do que Acupuntura
Reduzir a Medicina Tradicional Chinesa à Acupuntura seria deixar de fora uma parte enorme da sua riqueza.
Ao longo da formação e do estudo da MTC cruzámo-nos também com diferentes áreas e técnicas, entre elas:
Fitoterapia Chinesa · Tui Na (推拿) · Shiatsu · Auriculoterapia · Ventosaterapia · Moxabustão · Dietética Chinesa · Chi Kung/Qigong (氣功)
Algumas permanecem presentes de forma direta no tratamento. Outras deixaram conhecimentos, formas de observar ou princípios que hoje se encontram integrados noutras áreas da nossa prática.
Também a Fitoterapia Chinesa continua a fazer parte das possibilidades terapêuticas da Nmedicinas, incluindo fórmulas tradicionais quando são adequadas à pessoa e à situação, embora a disponibilidade e o custo possam condicionar a sua utilização.
Porque, para nós, conhecer uma medicina não significa ter de utilizar todas as suas ferramentas em todas as pessoas.
Significa saber que ferramentas existem e compreender quando podem fazer sentido.
Huangdi Neijing — 黃帝內經
O diálogo que atravessou os séculos
Entre os grandes textos da Medicina Chinesa, o Huangdi Neijing (黃帝內經) — Clássico Interno do Imperador Amarelo ocupa um lugar especial.
Construído sob a forma de diálogo, coloca o Imperador Amarelo — Huangdi (黃帝) — perante mestres, entre os quais Qibo (岐伯), fazendo perguntas sobre saúde, doença, natureza, longevidade e funcionamento do organismo.
Perguntas que conduzem a outras perguntas.
Respostas que procuram compreender antes de concluir.
Ao longo das suas duas grandes partes, Suwen (素問) e Lingshu (靈樞), encontramos muitos dos fundamentos que atravessariam a Medicina Chinesa: Yin e Yang, ciclos da natureza, órgãos e funções, Qi, canais, prevenção, diagnóstico e Acupuntura.
Mas talvez uma das ideias mais bonitas que atravessa esta tradição seja extraordinariamente simples:
cuidar da saúde antes de ser necessário tratar a doença.
Observar os ritmos da vida, a alimentação, as emoções, o repouso, a atividade e a relação com o ambiente faz parte dessa visão.
Séculos depois, a pergunta continua atual:
podemos aprender a reconhecer o desequilíbrio antes de ele se transformar em doença?
Uma tradição antiga numa prática contemporânea
Na Nmedicinas não procuramos reproduzir a Medicina Chinesa de há dois mil anos, nem transformar conceitos tradicionais em explicações para tudo.
Procuramos preservar aquilo que o seu estudo nos ensinou de mais valioso:
observar.
relacionar.
questionar.
prevenir.
e olhar para a pessoa antes de olhar apenas para a doença.
A Medicina Tradicional Chinesa tornou-se, assim, uma das várias camadas que integram o nosso raciocínio.
Não está numa gaveta que abrimos quando decidimos “usar MTC”.
Está presente na maneira como observamos, nas perguntas que fazemos, na palpação, em algumas das técnicas manuais, na fitoterapia e na procura das relações entre diferentes sinais.
Depois de muitos anos de estudo, algumas fronteiras começam naturalmente a desaparecer.
O conhecimento deixa de chegar com o nome da disciplina escrito por cima.
Passa simplesmente a fazer parte da forma como cuidamos.
Aos ombros de gigantes
Nenhuma tradição médica começa connosco.
Antes de nós existiram médicos, estudiosos e mestres que observaram, perguntaram, erraram, aprenderam e transmitiram conhecimento às gerações seguintes.
Estudar Medicina Tradicional Chinesa é também reconhecer essa herança.
Cada geração recebe aquilo que outras construíram, confronta-o com o conhecimento do seu tempo e continua o caminho.
Talvez seja essa uma das maiores riquezas de estudar medicinas diferentes:
cada uma acrescenta um degrau.
E, quando subimos alguns desses degraus, percebemos que ver mais longe não significa sermos maiores.
Significa apenas que tivemos a sorte de poder subir aos ombros de gigantes.