Ilustração em aguarela sobre medicinas tradicionais do mundo, com livro aberto, mapa-múndi, plantas medicinais e objetos de diferentes tradições.

Medicinas do Mundo

Muitas culturas. Muitas linguagens. O mesmo ser humano.

Antes de existirem escolas médicas, hospitais, laboratórios ou tratados, já existia alguém que cuidava de alguém.

Uma ferida precisava de ser tratada. Uma febre tinha de ser compreendida. A dor precisava de alívio. Era necessário descobrir o que alimentava, o que fortalecia, o que fazia adoecer e aquilo que, entre as plantas, raízes, minerais e outros recursos disponíveis, poderia ajudar.

Assim começou uma das mais antigas histórias da humanidade: a história de aprender a cuidar.

Em diferentes lugares do mundo, povos separados por oceanos, montanhas, línguas e culturas observaram o mesmo ser humano e procuraram respostas para as mesmas perguntas. Nem sempre chegaram às mesmas conclusões. Criaram explicações diferentes para a saúde e a doença, desenvolveram métodos próprios de diagnóstico e construíram formas distintas de tratamento.

Mas algumas ideias atravessaram continentes e milénios.

A alimentação como forma de preservar e recuperar a saúde. As plantas como recurso terapêutico. A observação atenta do corpo. A importância do ambiente. A relação entre aquilo que sentimos e aquilo que acontece fisicamente. O equilíbrio. A prevenção. E, em muitas culturas, uma dimensão espiritual inseparável da própria ideia de cuidar.

As Medicinas do Mundo nasceram dessa diversidade.

E continuam a contar a mesma história.

Os avós da Medicina

Muito antes de o conhecimento médico ser escrito, já era transmitido.

De geração em geração, diferentes povos foram aprendendo a reconhecer plantas, preparar alimentos, tratar feridas, aliviar sintomas e responder às maleitas que faziam parte da sua existência.

Parte desse conhecimento perdeu-se. Outra parte permaneceu na tradição oral. E outra atravessou os séculos, foi registada, estudada, transformada e acabou integrada em sistemas médicos progressivamente mais complexos.

É por isso que, na Nmedicinas, olhamos para os conhecimentos indígenas e ancestrais como os avós da Medicina.

Não porque tudo aquilo que fizeram deva ser reproduzido hoje. O conhecimento evoluiu, surgiram soluções mais avançadas e muitas práticas foram substituídas por alternativas mais eficazes, precisas ou seguras.

Mas porque antes de sabermos aquilo que sabemos hoje, alguém teve primeiro de observar.

E alguém teve de ensinar aquilo que observou.

Respeitar esse património não significa regressar ao passado. Significa compreender que também caminhamos sobre conhecimento construído por aqueles que vieram antes de nós.

A planta e o alimento

Há duas presenças que encontramos repetidamente na história do cuidado: a alimentação e as plantas.

Antes e depois do aparecimento dos grandes sistemas médicos, povos de praticamente todas as geografias aprenderam a utilizar os alimentos não apenas como sustento, mas também como parte do tratamento.

Com as plantas aconteceu algo semelhante.

Cada território ofereceu uma farmacopeia diferente e cada cultura aprendeu a olhar para aquilo que crescia à sua volta.

Na Índia, plantas como a Ashwagandha अश्वगन्धा e a Boswellia adquiriram particular importância. Na Ásia Oriental, o ginseng ganhou um lugar privilegiado. Povos aborígenes australianos desenvolveram conhecimentos sobre plantas do seu território, entre elas a melaleuca. Na tradição portuguesa, plantas mediterrânicas como o rosmaninho, o funcho ou a camomila fizeram parte de gerações de cuidados populares.

As plantas, porém, não ficaram onde nasceram.

As plantas viajam.

Viajaram com comerciantes, navegadores, migrações, encontros entre culturas e intercâmbios de conhecimento. Hoje viajam ainda mais depressa.

O gengibre é um exemplo simples. Um rizoma outrora pouco presente nos hábitos quotidianos portugueses encontra-se hoje facilmente nas nossas cozinhas e infusões.

E, quando as plantas viajam, o conhecimento viaja com elas.

É por isso que a Fitoterapia constitui uma das grandes pontes entre as Medicinas do Mundo.

Muitas maneiras de observar o mesmo ser humano

A Medicina Tradicional Chinesa desenvolveu conceitos como Qi , Yin e Yang 陰陽 e os Cinco Elementos 五行.

A Ayurveda आयुर्वेद construiu uma compreensão da individualidade em torno de conceitos como Prakriti प्रकृति, Vata, Pitta e Kapha.

A Medicina Tradicional Tibetana, Sowa Rigpa, desenvolveu a sua leitura do equilíbrio através de Lung, Tripa e Beken, profundamente relacionada com uma tradição espiritual e filosófica própria.

A medicina Unani transportou através dos séculos parte da tradição humoral greco-romana, desenvolvida e transformada no mundo islâmico e associada a figuras fundamentais da história da Medicina como Hipócrates, Galeno e Ibn Sina — Avicena.

O Kampo japonês desenvolveu uma utilização particularmente sistematizada de fórmulas medicinais.

A medicina constitucional coreana Sasang procurou compreender diferenças individuais através de diferentes tipos constitucionais.

Tradições africanas, indígenas americanas, amazónicas, mesoamericanas, indonésias, aborígenes australianas, islâmicas, árabes e europeias desenvolveram igualmente os seus próprios conhecimentos sobre plantas, alimentação, corpo, comunidade, ambiente e espiritualidade.

Não são a mesma medicina.

Os seus conceitos não devem ser artificialmente transformados em equivalências.

Mas todas observaram o mesmo ser humano.

E talvez seja precisamente por isso que, por caminhos diferentes, encontramos por vezes perguntas surpreendentemente semelhantes.

O conhecimento também viaja

As medicinas nunca evoluíram dentro de fronteiras completamente fechadas.

Povos encontraram-se. Textos foram traduzidos. Plantas atravessaram territórios. Médicos aprenderam com outros médicos. Impérios nasceram e desapareceram. Rotas comerciais transportaram mercadorias, mas também ideias.

O conhecimento grego passou para Roma e encontrou novos caminhos no mundo islâmico. Autores foram traduzidos, comentados, corrigidos e desenvolvidos. Conhecimentos persas, árabes, indianos e de outras proveniências encontraram-se em diferentes períodos da história.

A medicina Unani é um dos exemplos mais fascinantes dessa continuidade.

Nela é possível reconhecer uma ponte entre passado, presente e futuro: conhecimento antigo que não permaneceu imóvel, mas atravessou civilizações, recebeu novos contributos e continua a existir como sistema médico contemporâneo.

É uma lembrança de que o conhecimento não pertence definitivamente a uma época.

Viaja, encontra outros conhecimentos e transforma-se.

E Portugal?

Portugal também pertence às Medicinas do Mundo.

E entra pela porta principal.

A tradição europeia de base popular possui um património muito rico de utilização de plantas, chás, decocções, emplastros, preparações alimentares, águas termais e práticas transmitidas entre gerações.

Durante séculos, grande parte deste conhecimento não viveu em universidades. Viveu nas aldeias, nas famílias, nos campos e nas pessoas que conheciam as plantas do seu território.

Algumas práticas pertenciam ao domínio físico. Outras misturavam cuidados, religiosidade, espiritualidade e crença popular.

Hoje podemos olhar para esse património com os instrumentos do presente, distinguir aquilo que permanece terapeuticamente útil daquilo que pertence sobretudo à história e à cultura e, simultaneamente, reconhecer o seu valor.

Porque Medicinas do Mundo não significa procurar conhecimento apenas longe de casa.

O mundo começa precisamente onde estamos.

Conhecer não significa usar

Estudar uma medicina não significa aceitar tudo aquilo que ela propõe.

Na Nmedicinas, uma prática precisa primeiro de ser bem compreendida.

Depois perguntamos se acrescenta realmente alguma coisa àquilo que já fazemos. Se existe outra abordagem que oferece resultados melhores, não há vantagem em introduzir uma técnica apenas porque pertence a uma tradição diferente.

Importam também a consistência dos resultados, a segurança, os possíveis efeitos adversos e a evidência científica disponível, considerada em conjunto com o restante conhecimento clínico e terapêutico.

Algumas práticas são incorporadas.

Outras são conhecidas, mas deliberadamente não utilizadas.

E outras permanecem disponíveis para serem novamente estudadas quando o conhecimento, a investigação ou a própria evolução da prática clínica justificam regressar a elas.

Podemos imaginar este património como uma exposição permanente.

O acervo permanece, mas as obras que estão nas salas principais podem mudar.

Não por moda.

Por conhecimento.

Nenhuma Medicina sabe tudo

Nem as medicinas ancestrais.

Nem os grandes sistemas tradicionais.

Nem a medicina mais moderna.

Cada época recebe conhecimento das anteriores, acrescenta aquilo que consegue observar e deixa novas perguntas para quem vier depois.

E medicinas que coexistem no mesmo tempo também se encontram, influenciam e aprendem umas com as outras.

Por isso, quando dois sistemas explicam o mesmo fenómeno de maneiras diferentes, não precisamos de os obrigar a concordar.

Podemos estudar ambos.

Podemos escolher aquele que nos oferece a compreensão ou a resposta mais útil.

Podemos aproveitar contributos dos dois.

E podemos concluir que nenhum deles acrescenta aquilo de que precisamos.

Integrar não é acumular.

Conhecer não obriga a aceitar.

E respeitar uma tradição não exige transformá-la num dogma.

A nossa forma de estudar Medicina procura manter portas e janelas sempre abertas ao conhecimento.

Porque uma medicina que deixa de poder fazer perguntas, ser questionada e aprender deixa também de poder evoluir.

A pessoa no centro

Depois de atravessarmos tantas culturas, épocas e maneiras diferentes de compreender a saúde, talvez a maior aprendizagem das Medicinas do Mundo seja afinal muito simples.

A Medicina existe para cuidar de pessoas.

Ser médico não é apenas saber muito sobre doenças, fisiologia, diagnóstico ou tratamento.

É também saber olhar para a pessoa que está diante de nós.

Conhecer o seu mundo pessoal e social. Perceber os seus problemas, emoções e aspirações. Respeitar a sua religiosidade ou espiritualidade quando fazem parte da sua vida. Reconhecer a sua força interior e também os momentos em que essa força parece faltar.

Porque duas pessoas com a mesma doença nunca são exatamente a mesma pessoa.

E nenhuma quantidade de conhecimento médico substitui esse encontro.

Na Nmedicinas, procuramos por isso colocar a pessoa no centro da Medicina e do pensamento médico — e não a Medicina no centro da pessoa.

Talvez seja essa a verdadeira razão para estudar tantas formas de cuidar.

Não para termos mais medicinas para escolher.

Mas para termos mais conhecimento disponível para compreender uma pessoa.

E continuar a aprender.

Sempre.

Tratar a doença quando ela já se manifestou é mais fácil; cuidar da pessoa antes de ela adoecer é mais difícil.

É também aí que começa a Medicina.