Infográfico ilustrado sobre a importância da alimentação terapêutica na promoção da saúde.

Alimentação Terapêutica

A cozinha é a nossa primeira farmácia

Comer é uma das ações mais simples e repetidas da nossa vida. Fazemo-lo todos os dias, várias vezes por dia, e aquilo que escolhemos colocar à mesa participa continuamente no funcionamento do organismo. Por isso, antes de pensarmos no que podemos acrescentar através da fitoterapia, procuramos compreender aquilo que já faz parte da alimentação de cada pessoa.

Na Nmedicinas, a Alimentação Terapêutica utiliza os alimentos como parte do tratamento, procurando introduzir, reduzir, substituir ou retirar determinados alimentos de acordo com a situação clínica, os sintomas e as necessidades individuais.

Não procuramos transformar cada refeição numa prescrição, nem a mesa num lugar de regras, cálculos e proibições. Procuramos algo muito mais simples: perceber de que forma a alimentação quotidiana pode deixar de contribuir para o problema e começar a participar na recuperação.

É por isso que costumamos dizer:

A cozinha é a nossa primeira farmácia.

Antes de mudar a alimentação, precisamos de conhecer a pessoa

A alimentação começa a ser avaliada desde a primeira conversa da consulta. Procuramos conhecer os hábitos diários, a atividade física, a medicação existente, os horários, o número de refeições e aquilo que habitualmente está presente à mesa.

Perguntamos pelo consumo de legumes, peixe, carnes, enchidos, doces, pão, sal e outros alimentos, mas também fazemos uma pergunta aparentemente muito simples: quais são os alimentos de que mais gosta e aqueles que come com maior frequência?

Por vezes, são precisamente esses pequenos hábitos repetidos todos os dias que nos ajudam a encontrar elementos importantes para compreender aquilo que se passa.

Esta observação é conjugada com os diagnósticos existentes, sintomas, análises, idade, funcionamento intestinal, medicação, estilo de vida e história clínica. O conhecimento científico e a experiência clínica participam neste raciocínio, assim como conhecimentos provenientes de diferentes conceções da alimentação e a observação da resposta individual.

Porque duas pessoas com a mesma patologia podem precisar de alterações alimentares muito diferentes.

Não prescrevemos uma dieta. Construímos mudanças.

A Alimentação Terapêutica que praticamos não parte habitualmente de uma dieta rígida à qual a pessoa tenha de se adaptar.

Utilizamos a alimentação mediterrânica como principal referência, pela sua riqueza e diversidade, mas também porque está próxima da nossa cultura e dos hábitos alimentares de grande parte da população portuguesa. A partir dessa base, integramos conhecimentos provenientes da dietoterapia ocidental e de outras tradições médicas, incluindo a Ayurveda e diferentes culturas alimentares orientais.

Em vez de reconstruirmos toda a alimentação de uma pessoa, muitas vezes começamos por pequenas alterações: substituir determinadas gorduras por azeite, reduzir carnes vermelhas e aumentar peixe e aves, diminuir alimentos excessivamente processados, introduzir sementes, frutos secos, ervas aromáticas ou especiarias e procurar alternativas mais adequadas para determinados ingredientes.

Noutras situações, aquilo que retiramos pode ser tão importante como aquilo que acrescentamos. Perante determinados quadros inflamatórios, gastrointestinais, metabólicos ou perante alergias e intolerâncias, a redução ou exclusão de determinados alimentos pode fazer parte do próprio tratamento.

Não existe, portanto, uma lista universal de alimentos bons e maus.

Existe uma pergunta muito mais importante:

O que faz sentido para esta pessoa, neste momento da sua vida e perante aquilo que o seu organismo nos está a mostrar?

Quando o alimento pode ser o tratamento

Alguns alimentos, ervas aromáticas e especiarias podem ser escolhidos deliberadamente pelas suas propriedades e pelo papel que pretendemos que desempenhem no organismo.

Alho, cebola, mel, ervas aromáticas, sementes, frutos secos e diferentes especiarias são alguns dos muitos recursos que podem encontrar lugar na alimentação quotidiana. O mesmo princípio aplica-se às substituições: não se trata apenas de retirar alguma coisa, mas de procurar uma alternativa que cumpra melhor o objetivo pretendido.

Esta lógica permite-nos também estabelecer uma relação muito próxima entre Alimentação Terapêutica e Fitoterapia Integrativa.

Sempre que conseguimos obter através da alimentação um apoio adequado, procuramos começar por aí. Se pretendemos aumentar a presença de ómega-3, por exemplo, podemos primeiro avaliar a possibilidade de introduzir ou reforçar alimentos como sardinha, cavala, salmão, sementes de chia, linhaça ou nozes. Quando a quantidade necessária, a situação clínica ou outras circunstâncias tornam essa estratégia insuficiente, podemos então recorrer à fitoterapia ou a outras formas de apoio.

Não substituímos automaticamente um alimento por uma preparação quando a própria alimentação consegue cumprir esse papel.

Primeiro olhamos para a cozinha. Depois procuramos aquilo que ainda falta.

Comer deve continuar a fazer parte da vida

Uma proposta alimentar pode ser excelente do ponto de vista teórico e completamente inadequada para a pessoa que a recebe.

Por isso, procuramos compreender os gostos, os hábitos familiares, os horários, a cultura alimentar, a capacidade económica, a disponibilidade para cozinhar e, sobretudo, a recetividade à mudança.

Há pessoas preparadas para alterar muitos hábitos de uma só vez. Outras precisam de começar por uma pequena mudança e acrescentar outra mais tarde. Em determinadas famílias, modificar toda a alimentação seria simples; noutras, poderia criar conflitos, isolamento ou tornar impossível a continuidade do tratamento.

Tudo isto importa.

Uma alteração que produz ansiedade, culpa ou uma rutura permanente com a vida quotidiana pode deixar de ser uma ajuda e transformar-se num novo problema.

É também por essa razão que, na maioria das situações, não centramos a nossa abordagem na contagem permanente de calorias, na pesagem de cada alimento ou em planos excessivamente rígidos. Quando a refeição se transforma todos os dias numa operação matemática, existe o risco de perder aquilo que também faz parte de comer: prazer, convívio, cultura, memória e normalidade.

Queremos que a pessoa compreenda melhor aquilo que come e as razões pelas quais determinada alteração lhe pode ser útil.

Não que tenha medo daquilo que coloca no prato.

Mudar sem deixar de ser quem somos

A alimentação acompanha-nos desde a infância. Está ligada à família, ao lugar onde crescemos, às celebrações, às rotinas e até às nossas memórias. Por isso, mudar a alimentação não deve significar apagar tudo aquilo que existia antes.

A tradição mediterrânica constitui frequentemente o nosso ponto de partida, mas isso não impede que seja enriquecida com conhecimentos provenientes de outras culturas. Uma especiaria utilizada tradicionalmente na Índia, uma combinação proveniente de outra tradição alimentar ou uma nova forma de preparar um alimento podem encontrar naturalmente lugar numa cozinha portuguesa.

Integrar significa precisamente isso: acrescentar conhecimento sem retirar identidade.

A Alimentação Terapêutica não procura criar uma alimentação perfeita. Procura construir uma alimentação possível, consciente e suficientemente flexível para acompanhar a pessoa durante muito mais tempo do que duraria qualquer plano impossível de manter.

Porque o melhor tratamento alimentar não é necessariamente aquele que parece perfeito no papel.

É aquele que a pessoa consegue levar consigo para a vida.

A alimentação deve adaptar-se à pessoa

Não procuramos fazer com que todas as pessoas comam da mesma forma. Também não acreditamos que exista uma única dieta capaz de responder a todas as idades, patologias, culturas, organismos e formas de viver.

Aquilo que é adequado num determinado momento pode precisar de ser modificado mais tarde. A evolução clínica, a resposta do organismo e as próprias circunstâncias da vida fazem parte desse processo.

Por isso, a Alimentação Terapêutica é também acompanhamento, aprendizagem e adaptação.

Não queremos adaptar a pessoa a uma dieta. Procuramos adaptar a alimentação à pessoa.

Porque cuidar daquilo que comemos não significa transformar a vida numa dieta.

Significa fazer daquilo que já pertence à vida uma forma de cuidar dela.