
Ayurveda
Uma medicina que mudou o caminho
Há medicinas que encontramos através dos livros, outras que conhecemos durante uma formação e algumas que chegam à nossa vida porque precisamos delas.
A Ayurveda — आयुर्वेद — chegou assim.
Muito antes de se tornar parte da prática clínica da Nmedicinas, foi procurada como resposta a uma situação pessoal de doença. Em 2012, perante um diagnóstico grave e um prognóstico muito reservado, começou uma procura por outras formas de compreender o organismo, a doença e as possibilidades de recuperação.
Foi nessa procura que surgiu uma medicina praticamente desconhecida até então: a Ayurveda, uma das grandes tradições médicas da Índia.
O objetivo inicial era simples e profundamente pessoal: estudar, compreender e tentar recuperar a saúde para depois regressar à vida profissional anterior.
O caminho acabou por ser outro.
A Ayurveda tornou-se a primeira grande formação em medicina tradicional de um percurso que continuaria depois por outras medicinas e áreas terapêuticas.
E aquilo que começou como uma procura por saúde acabaria também por mudar uma vida.
A ciência da vida
A palavra Ayurveda — आयुर्वेद — nasce da união de dois termos sânscritos: Āyus — आयुस्, vida — e Veda — वेद, conhecimento ou ciência.
O conhecimento da vida.
Mas essa vida não é compreendida apenas como ausência de doença.
Na tradição ayurvédica, corpo, mente, alimentação, ambiente, emoções, energia e dimensão espiritual participam numa mesma realidade. A saúde depende das relações entre estas diferentes dimensões e da capacidade de preservar um equilíbrio que é próprio de cada pessoa.
É uma medicina com raízes muito antigas, construída e transmitida ao longo de séculos através da observação, da experiência clínica e de uma extensa tradição escrita.
Obras clássicas como o Charaka Saṃhitā — चरक संहिता — e o Suśruta Saṃhitā — सुश्रुत संहिता — desenvolveram conhecimentos sobre diagnóstico, alimentação, plantas medicinais, prevenção, medicina interna, anatomia e cirurgia que marcariam profundamente a história da medicina indiana.
Estudar Ayurveda é, por isso, entrar simultaneamente numa medicina, numa cultura e numa forma muito antiga de pensar o ser humano.
Aprender uma medicina por inteiro
A formação em Medicina Ayurveda estendeu-se por quatro anos e seis meses de estudo e um ano e quatro meses de estágio hospitalar.
Começou pelos fundamentos filosóficos, Anatomia e Fisiologia humana — moderna e ayurvédica — incluindo dissecção anatómica, princípios fundamentais da Ayurveda, aprendizagem de sânscrito e estudo dos primeiros tratados médicos.
Seguiram-se a farmacologia das plantas medicinais, preparação de medicamentos herbais e minerais, Patologia, diagnóstico tradicional e exames modernos.
Nos anos seguintes foram estudadas Toxicologia, Medicina Preventiva, Dietética, Yoga, Ginecologia e Obstetrícia, Pediatria e Neonatologia, Medicina Interna, Panchakarma, Cirurgia, Oftalmologia, Otorrinolaringologia e Metodologia de Investigação Científica.
O estudo dos grandes textos clássicos acompanhou esta formação. O Charaka Saṃhitā e o Suśruta Saṃhitā foram estudados diretamente, juntamente com traduções e edições comentadas em diferentes línguas e outras obras, algumas delas já para além do programa académico.
Esta amplitude é importante para compreender a Ayurveda que chegou à Nmedicinas.
Não chegou como uma técnica.
Chegou como uma medicina.
A natureza de cada pessoa
Uma das ideias mais fascinantes da Ayurveda é simultaneamente uma das mais simples:
não somos todos iguais.
Cada pessoa nasce com uma natureza própria — Prakriti प्रकृति — resultante de uma combinação particular dos princípios funcionais tradicionalmente designados por Vāta वात, Pitta पित्त e Kapha कफ.
Essa individualidade modifica a maneira como cada organismo funciona, reage ao ambiente, se alimenta, adoece e procura recuperar o equilíbrio.
Duas pessoas podem chegar à consulta com sintomas aparentemente semelhantes e, ainda assim, necessitarem de abordagens diferentes.
Esta forma de pensar deixou uma marca profunda na nossa prática clínica.
Uma planta que pode ser adequada para determinada pessoa pode não ser indicada para outra. Um alimento considerado saudável pode não ser apropriado em todas as circunstâncias. Uma doença com o mesmo nome pode manifestar-se de formas muito diferentes em dois organismos.
Por isso, é tão ou mais importante conhecer a pessoa do que conhecer a doença.
A doença não define quem temos à nossa frente.
A pessoa é que dá à doença o contexto em que ela existe.
Observar antes de tratar
A individualização exige observação.
A avaliação ayurvédica tradicional procura informação em muitos lugares: constituição corporal, pulso, língua, pele, olhos, unhas, temperatura, apetite, digestão, eliminações, sono, comportamento e estado emocional.
Nenhum destes elementos precisa de existir isoladamente.
Na Nmedicinas, muitos conhecimentos aprendidos posteriormente através da Medicina Tradicional Chinesa, da Naturopatia e de outras áreas acabaram por se encontrar com esta primeira forma de observação.
Hoje, as fronteiras nem sempre são visíveis durante uma consulta.
Um conhecimento chama outro. Uma observação pode fazer recordar um princípio ayurvédico, enquanto a seguinte conduz ao raciocínio da Medicina Tradicional Chinesa ou da medicina ocidental.
Não procuramos obrigar a pessoa a caber dentro de uma medicina.
Utilizamos as medicinas para compreender melhor a pessoa.
A fornalha ayurvédica
Entre os muitos conceitos da Ayurveda, poucos permaneceram tão presentes na nossa prática como Agni — अग्नि.
Agni significa fogo e representa, entre outras dimensões, a capacidade digestiva e metabólica do organismo.
Gostamos de lhe chamar “a fornalha ayurvédica”.
A imagem é simples: para cozinhar corretamente aquilo que colocamos num forno, precisamos de fogo suficiente.
Também não basta introduzir bons alimentos no organismo. É necessário conseguir digeri-los, transformá-los, absorvê-los e utilizá-los.
Por isso, quando avaliamos a alimentação, interessamo-nos também pelo apetite, pela digestão, pela sensação depois das refeições e pelas eliminações.
Ligado a Agni surge outro conceito importante: Ama — आम — tradicionalmente associado ao resultado de processos incompletos de digestão e transformação.
São conceitos antigos, pertencentes ao sistema médico que os criou, e não precisam de ser transformados artificialmente em conceitos biomédicos modernos para continuarem a ser úteis dentro do seu próprio modelo.
Na nossa prática, ajudam sobretudo a fazer perguntas.
Não importa apenas aquilo que entra no organismo. Importa aquilo que o organismo consegue fazer com o que recebe.
A cozinha antes da farmácia
Antes de existir o médico, existiu a experiência da alimentação.
No período que antecedeu a formação em Ayurveda, a alimentação fez parte do próprio processo pessoal de procura de saúde, juntamente com diferentes tratamentos ayurvédicos.
Foi também aí que começou a ganhar forma uma ideia que permaneceria até hoje:
A Cozinha é a Nossa Primeira Farmácia.
A Ayurveda atribui à alimentação um lugar central.
Não observa apenas nutrientes isolados. Considera a natureza dos alimentos, os sabores, a preparação, a capacidade digestiva, a constituição individual, as combinações, os horários e as necessidades particulares de cada pessoa.
O alimento deixa, assim, de ser apenas combustível.
Pode tornar-se parte do cuidado.
Este princípio atravessaria posteriormente a Naturopatia e acabaria por encontrar um espaço próprio na Alimentação Terapêutica da Nmedicinas.
Sempre que seja possível começar pela alimentação, começamos por aí.
Plantas que continuam a atravessar o tempo
A Fitoterapia Ayurvédica foi outra das grandes heranças desta formação.
O estudo de Dravyaguna Vigyan permitiu conhecer as plantas medicinais dentro da lógica ayurvédica, enquanto Rasa Shastra e Bhaishajya Kalpana aprofundaram a preparação e utilização de diferentes formulações terapêuticas.
Hoje, a Ayurveda continua a ser uma das fontes mais utilizadas na Fitoterapia da Nmedicinas.
Preparações tradicionais e plantas como Triphala, Amla, Ashwagandha e outras fórmulas podem fazer parte da prática clínica quando são adequadas à pessoa e à situação em avaliação.
A forma de as utilizar, porém, evoluiu.
O conhecimento dos Doshas, das propriedades das plantas e dos princípios tradicionais continua presente, mas convive agora com a experiência clínica e com conhecimentos provenientes de outras medicinas.
É mais uma vez a integração que nos interessa.
Não utilizar uma planta porque pertence à Ayurveda.
Utilizá-la quando é uma boa escolha para aquela pessoa.
Corpo, mente, energia e espírito
A Ayurveda nunca construiu fronteiras rígidas entre corpo e mente.
Emoções, alimentação, comportamento, energia e dimensão espiritual participam na compreensão da saúde.
Conceitos como Prāṇa — प्राण — relacionado com a energia vital, ou Ojas — ओजस् — associado à vitalidade e ao resultado mais profundo de uma boa nutrição e transformação, acrescentaram outras formas de observar aquilo que acontece numa pessoa.
Yoga — योग —, meditação, técnicas respiratórias como Prāṇāyāma — प्राणायाम — e rotinas quotidianas também fizeram parte da formação e do estudo posterior.
Nem todas as práticas estudadas foram incorporadas na atividade clínica.
Algumas foram conscientemente deixadas de lado.
Outras permaneceram de tal forma integradas que hoje podem surgir numa orientação sem necessidade de lhes colocar a etiqueta “Ayurveda”.
Entre elas encontram-se particularmente a meditação, as rotinas diárias, o Yoga e a respiração, incluindo Nāḍī Śodhana — नाडी शोधन.
Porque uma medicina também se revela naquilo que escolhemos conservar dela.
Tradição não significa imobilidade
Estudar uma medicina com milhares de anos não significa tentar reproduzir integralmente uma prática de outro tempo e de outra cultura.
Significa conhecê-la suficientemente bem para perceber os seus princípios, compreender a sua história, respeitar a tradição e decidir conscientemente aquilo que pode fazer sentido hoje.
Foi também assim com a Ayurveda.
Algumas práticas foram estudadas profundamente e depois deliberadamente não incorporadas na nossa atividade clínica. Outras atravessaram os anos e continuam presentes todos os dias.
A tradição oferece conhecimento.
A experiência ensina-nos a escolher.
E o encontro com outras medicinas permite continuar a fazer perguntas que talvez nenhuma delas, isoladamente, nos permitisse formular.
Uma medicina que veio antes das outras
Quando posteriormente chegaram a Medicina Tradicional Chinesa e a Naturopatia, algumas ideias já estavam presentes.
A individualidade.
A importância da alimentação.
As plantas medicinais.
A observação do organismo para além do sintoma.
A relação entre corpo, mente e energia.
A necessidade de procurar equilíbrio em vez de olhar apenas para uma doença isolada.
Cada medicina acrescentaria depois a sua própria linguagem e novas formas de compreender essas questões.
Mas a Ayurveda tinha aberto a primeira porta.
E talvez por isso ainda hoje seja possível reconhecê-la na Nmedicinas mesmo quando o seu nome não é pronunciado: na anamnese, na forma de observar a pessoa, na alimentação e, sobretudo, na Fitoterapia.
Agni e Ama
Se fosse necessário guardar apenas dois conceitos de tudo aquilo que a Ayurveda ensinou, seriam estes:
Agni — अग्नि — e Ama — आम.
A capacidade de transformar aquilo que recebemos.
E aquilo que acontece quando essa transformação deixa de decorrer adequadamente.
Talvez porque, por detrás deles, existe uma ideia muito maior que atravessa toda esta medicina:
saúde não depende apenas daquilo que damos ao organismo, mas da capacidade que ele tem de receber, transformar, utilizar e eliminar.
É uma forma antiga de pensar.
E continua a fazer perguntas extraordinariamente atuais.
Existe o Dr. Nabais
Há ainda uma última pergunta que esta página não poderia deixar sem resposta.
O que existiria hoje no médico da Nmedicinas se a Ayurveda nunca tivesse aparecido?
A resposta não está num tratado, num diploma, numa planta medicinal ou num conceito em sânscrito.
Quando a Ayurveda apareceu, não existia o projeto de construir uma carreira em medicina.
Existia uma pessoa doente que procurava uma possibilidade de continuar a viver.
Depois vieram anos de estudo. Vieram os textos antigos, os professores, o hospital, a Anatomia, a Farmacologia, a Medicina Interna, a Cirurgia, a alimentação e as plantas.
Vieram outras medicinas.
Vieram os primeiros pacientes.
E, muito mais tarde, veio a Nmedicinas.
Por isso, quando perguntamos o que teria sido diferente sem aquele primeiro encontro, talvez não exista uma resposta académica possível.
Existe apenas aquela que deu origem a toda esta história: