
Ventosaterapia
Quando as mãos precisam de outra forma de chegar aos tecidos
A Ventosaterapia é uma técnica ancestral que utiliza a pressão negativa criada por ventosas para atuar sobre a pele e os tecidos subjacentes. Presente em diferentes culturas e tradições terapêuticas, foi desenvolvendo ao longo dos séculos diferentes formas de aplicação e interpretação.
Na Nmedicinas, a nossa formação de base em Ventosaterapia e massagem com ventosas provém da Medicina Tradicional Chinesa, tendo sido posteriormente complementada pelo estudo de outras abordagens, entre as quais a tradição islâmica e do Médio Oriente, conhecida como Hijama, e perspetivas ocidentais provenientes da fisioterapia e do trabalho miofascial.
Não procuramos escolher uma destas escolas em detrimento das restantes. Tal como acontece noutras áreas do nosso trabalho, utilizamos conhecimentos diferentes para compreender melhor aquilo que encontramos em cada pessoa.
A Ventosaterapia surge sobretudo quando sentimos que o trabalho realizado apenas com as mãos pode beneficiar de um estímulo complementar.
Uma técnica simples, muitas formas de aplicação
Existem diferentes tipos de ventosas e diferentes maneiras de produzir o vácuo necessário à sua aplicação.
Ao longo da formação aprendemos a trabalhar com vários sistemas, incluindo ventosas tradicionais de vidro com fogo, ventosas de silicone e outras modalidades. Na prática clínica utilizamos predominantemente ventosas de plástico com bomba manual de vácuo, que permitem controlar a intensidade da sucção e selecionar diferentes tamanhos de acordo com a região corporal a tratar.
Na aplicação convencional, as ventosas permanecem normalmente fixas durante cerca de 10 a 15 minutos, sendo a intensidade adaptada à pessoa, à região e à resposta dos tecidos.
Podemos também recorrer à massagem com ventosas, utilizando modelos próprios e um meio de deslizamento sobre a pele. Neste caso, em vez de permanecer fixa num determinado ponto, a ventosa acompanha o trajeto que pretendemos trabalhar.
São duas formas diferentes de utilizar o mesmo princípio: criar uma pressão negativa controlada sobre os tecidos.
Anatomia, palpação e meridianos
A escolha do local onde colocamos uma ventosa não resulta de um único critério.
A localização da dor, a anatomia, a musculatura, aquilo que encontramos através da palpação e a avaliação realizada durante o tratamento ajudam-nos a decidir onde poderá ser útil intervir.
Mas a nossa formação em Medicina Tradicional Chinesa acrescenta outra perspetiva.
Podemos considerar também meridianos e pontos tradicionalmente utilizados pela MTC, bem como conceitos como a circulação do Qi e do Xue. Estes conceitos pertencem ao modelo tradicional da Medicina Chinesa e não correspondem diretamente às estruturas e mecanismos descritos pela biomedicina moderna, mas fazem parte do conhecimento histórico e terapêutico no qual aprendemos esta técnica.
Na prática, não precisamos de escolher entre observar um músculo ou considerar um meridiano.
Podemos conhecer ambos e saber de que forma cada perspetiva participa no nosso raciocínio.
O que a pele nos pode mostrar
Depois da aplicação das ventosas é frequente surgir uma marca circular temporária, cuja intensidade e tonalidade podem variar consideravelmente.
Estas alterações resultam da ação da pressão negativa sobre a pele e os tecidos superficiais e não são, por si mesmas, o objetivo do tratamento.
Na tradição da Medicina Chinesa, porém, a aparência dessas marcas também é observada e interpretada. Diferenças de tonalidade e intensidade podem ser relacionadas, dentro desse sistema tradicional, com diferentes padrões de circulação e estagnação.
Fazemos essa leitura quando é pertinente, mas não confundimos os dois planos: uma interpretação proveniente da MTC não constitui, isoladamente, um diagnóstico biomédico.
Mais importante do que procurar produzir uma determinada cor é observar como os tecidos e a pessoa respondem ao tratamento.
Da tensão muscular à função respiratória
A Ventosaterapia pode ser utilizada em diferentes contextos e regiões do corpo.
No nosso trabalho, pode complementar a intervenção perante tensão e sobrecarga muscular, contraturas, cervicalgias, lombalgias e outras alterações musculoesqueléticas, sobretudo quando pretendemos acrescentar ao trabalho manual uma ação diferente sobre os tecidos.
A formação tradicional em MTC contempla igualmente aplicações da Ventosaterapia em determinados padrões relacionados com o sistema respiratório. Esta é uma área que também integra a nossa experiência, sempre enquadrada na avaliação global da pessoa e sem substituir o diagnóstico ou tratamento médico necessário perante doença respiratória.
Não existe, portanto, um único “mapa de ventosas” que aplicamos indistintamente a todas as pessoas.
Primeiro avaliamos. Depois decidimos se a técnica faz sentido e como deve ser utilizada.
Nem todas as pessoas devem receber o mesmo tratamento
A intensidade de uma ventosa não é um valor fixo.
Idade, características da pele, sensibilidade, região anatómica, massa muscular, fragilidade dos tecidos e condição geral da pessoa influenciam a escolha do tamanho da ventosa, o grau de vácuo e o tempo de aplicação.
Existem igualmente situações em que preferimos não recorrer à Ventosaterapia, nomeadamente perante determinadas lesões ou alterações cutâneas, feridas, fragilidade vascular, risco hemorrágico ou outras condições que tornem a sucção inadequada.
A idade exige particular atenção. Em pessoas muito idosas ou com tecidos especialmente frágeis, a decisão deve ser ainda mais prudente.
Porque saber utilizar uma técnica também significa saber quando não a utilizar.
A Ventosaterapia não trabalha sozinha
Na Nmedicinas, raramente pensamos numa técnica como um tratamento fechado sobre si próprio.
A Ventosaterapia é habitualmente integrada na intervenção que estamos a realizar e pode complementar a Técnica Nabais–Chaitow, o trabalho manual e outras abordagens selecionadas para aquela pessoa.
Por vezes são as mãos que identificam primeiro uma região que necessita de atenção. Noutras situações, aquilo que encontramos durante a avaliação leva-nos a recorrer às ventosas. Depois da sua aplicação, voltamos a observar e a trabalhar o corpo.
Existe, portanto, uma continuidade entre avaliação e tratamento.
As ventosas não substituem as mãos. Acrescentam-lhes outra possibilidade de intervenção.
A técnica pode ser a mesma. A forma de a utilizar não é.
Uma ventosa continua a ser uma ventosa e o princípio físico que permite a sua utilização é relativamente simples.
Aquilo que pode mudar profundamente é tudo o que existe antes de a colocarmos sobre a pele.
Conhecer anatomia e fisiologia. Saber palpar. Compreender o movimento. Conhecer os princípios da Medicina Tradicional Chinesa. Reconhecer os limites da técnica. Escolher o tamanho adequado. Regular a intensidade. Perceber quando devemos utilizá-la e, sobretudo, quando devemos parar ou simplesmente não começar.
É nesse conhecimento acumulado que encontramos o verdadeiro valor da Ventosaterapia dentro da nossa prática.
Não procuramos que uma técnica faça tudo. Procuramos perceber o que pode acrescentar naquele momento ao tratamento daquela pessoa.
Porque, para nós, uma ventosa nunca é o tratamento inteiro.
É apenas mais uma ferramenta dentro de um todo maior.